Os medicamentos e materiais apreendidos pela Vigilância Sanitária no Estúdio T Store, estabelecimento de estética ligado à ex-primeira-dama de Sapezal Tatiane Recalcatti, incluem produtos anestésicos, peptídeos sem registro no órgão regulador, um diluente utilizado na preparação de substâncias injetáveis e seringas para insulina.
A apreensão ocorreu durante uma fiscalização realizada após denúncia sobre a comercialização e utilização de produtos considerados irregulares. Segundo os documentos encaminhados ao Ministério Público, foram encontrados dois frascos de Bionexis Peptides GHK-Cu, nas concentrações de 50 e 100 miligramas; dois frascos do anestésico Xylestesin; uma ampola de diluente bacteriostático com álcool benzílico; e 11 seringas para insulina.
O auto de infração afirma que os produtos estavam sendo armazenados, comercializados ou utilizados sem o cumprimento das exigências sanitárias. A fiscalização também apontou ausência de receita médica e de habilitação profissional para a dispensação ou aplicação dos medicamentos.
Peptídeos não tinham registro sanitário
Os frascos de Bionexis Peptides GHK-Cu foram identificados pela fiscalização como produtos sem registro no órgão sanitário competente. A sigla GHK-Cu corresponde a um peptídeo associado ao cobre, encontrado em produtos divulgados para finalidades estéticas.
Por não possuir registro sanitário, o produto não tem indicação, dosagem, segurança e eficácia aprovadas pela Anvisa para comercialização e utilização como medicamento no Brasil.
O registro sanitário é concedido após a avaliação das evidências disponíveis sobre qualidade, segurança e relação entre riscos e benefícios. Dessa forma, a ausência de registro significa que o produto não passou pela avaliação necessária para ser regularmente comercializado e utilizado nas condições anunciadas.
Entre os principais riscos associados a produtos injetáveis sem registro estão a impossibilidade de confirmar oficialmente sua composição, concentração, esterilidade, origem e condições de fabricação. Também podem ocorrer contaminações, infecções, reações alérgicas, inflamações, lesões nos tecidos e efeitos sistêmicos imprevisíveis.
A Anvisa alerta que medicamentos sem registro no Brasil não tiveram sua segurança e eficácia avaliadas pela agência e podem estar expostos, inclusive, ao risco de falsificação ou procedência desconhecida.
Anestésicos exigem aplicação segura
Também foram apreendidos dois frascos de Xylestesin. Um deles continha apenas cloridrato de lidocaína, enquanto o outro possuía lidocaína associada à epinefrina.
A lidocaína é um anestésico utilizado para reduzir ou bloquear temporariamente a sensibilidade e a dor durante procedimentos. O medicamento pode ser aplicado para a realização de anestesia local ou regional por técnicas específicas.
Apesar de ser um medicamento regularizado e utilizado na área da saúde, sua aplicação inadequada pode provocar intoxicação. Entre as possíveis complicações estão tontura, alterações neurológicas, convulsões, queda da pressão arterial, redução dos batimentos cardíacos, dificuldade respiratória, arritmias e, nos casos mais graves, colapso cardiovascular.
A versão com epinefrina possui ação vasoconstritora, utilizada para diminuir o fluxo de sangue no local e prolongar o efeito do anestésico. Entretanto, a substância pode elevar a pressão, acelerar os batimentos e aumentar o risco de alterações cardíacas, especialmente em pacientes com determinadas condições de saúde. A bula apresenta restrições para pessoas com doença cardíaca grave ou hipertireoidismo.
Por essas razões, a dose, o local de aplicação, as condições clínicas do paciente e a capacitação do profissional são fatores essenciais para reduzir os riscos.
Diluente era utilizado para preparar injetáveis
A fiscalização também encontrou uma ampola de diluente bacteriostático contendo álcool benzílico. Esse tipo de produto é utilizado para dissolver ou reconstituir determinados medicamentos antes de uma aplicação.
O diluente não possui uma função estética isolada. Ele deve ser empregado somente quando houver compatibilidade com o medicamento que será preparado e de acordo com as respectivas orientações técnicas.
A utilização incorreta pode provocar erros na concentração da substância, incompatibilidade entre produtos, contaminação durante o preparo e aplicação de doses diferentes das previstas. Preparações com álcool benzílico possuem ainda restrições importantes para recém-nascidos e crianças muito pequenas.
As seringas para insulina apreendidas não são medicamentos. Elas são utilizadas para aplicar pequenos volumes de substâncias, geralmente por via subcutânea. O uso inadequado pode causar infecções, sangramentos, lesões em vasos ou nervos e erros de dosagem.
Caso está sob apuração
Com base nos documentos da fiscalização, o Ministério Público instaurou a Notícia de Fato nº 000948-018/2026. O procedimento apura possível risco à saúde pública e aos direitos dos consumidores.
Tatiane Recalcatti e o Estúdio T Store foram notificados para apresentar manifestação sobre os fatos, documentos comprovando a origem e a aquisição dos produtos e informações sobre a habilitação profissional das pessoas responsáveis pela eventual dispensação ou aplicação.
A apuração permanece em andamento e não representa, neste momento, uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.

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