O áudio do deputado estadual Chico Guarnieri (PSDB), que repercutiu na imprensa estadual nesta semana, é revoltante.
Durante uma ligação telefônica, o parlamentar desfere uma sequência de ofensas contra uma conhecida empresária de Sapezal, utilizando termos baixos e absolutamente incompatíveis com o respeito que qualquer pessoa merece — especialmente em um momento no qual a sociedade trava uma batalha diária contra todas as formas de violência direcionadas às mulheres.
Não bastassem as ofensas, em determinado momento da conversa o deputado afirma que iria até a empresa da empresária, numa fala de evidente tom intimidatório.
Por respeito à mulher envolvida e para evitar que ela seja ainda mais exposta, esta coluna decidiu preservar sua identidade.
Mas existe uma pergunta que Chico Guarnieri deveria responder:
Se fosse um homem do outro lado da linha, o tratamento seria o mesmo?
O deputado utilizaria os mesmos termos? Falaria da mesma maneira? Teria adotado o mesmo tom? Diria que iria até o estabelecimento daquele homem?
Essa pergunta não é mera retórica.
Durante muito tempo, a sociedade normalizou comportamentos que hoje precisam ser confrontados. Normalizou o homem que grita com uma mulher. Normalizou aquele que a humilha. Normalizou palavrões, intimidações e ameaças sob justificativas como "estava nervoso", "foi no calor do momento" ou "era apenas uma discussão".
Não. Não é normal.
E não pode continuar sendo tratado como normal.
Principalmente em um país no qual milhares de mulheres são vítimas de violência todos os anos.
O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher de 2026, elaborado pelo Ministério das Mulheres, registrou 1.548 feminicídios e 3.821 tentativas de feminicídio no Brasil em 2025. As tentativas cresceram aproximadamente 12,5% em relação ao ano anterior. O próprio relatório alerta que a violência letal e as tentativas de assassinato contra mulheres continuam em patamares muito elevados.
Os dados mais recentes mostram que, entre janeiro e julho de 2026, 848 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Houve redução de 3,2% em comparação ao mesmo período do ano anterior, mas o número permanece brutalmente elevado.
É nesse contexto que episódios como esse precisam ser analisados.
Ninguém está dizendo que uma ofensa verbal seja equivalente a um feminicídio. Evidentemente não é.
Mas existe uma cadeia de comportamentos que precisa deixar de ser banalizada. A violência contra a mulher não começa necessariamente com um soco. Muitas vezes começa no desrespeito, na tentativa de diminuir, no constrangimento, na humilhação, na intimidação, na sensação de que um homem pode utilizar sua força, sua posição ou sua voz para colocar uma mulher em seu lugar.
É justamente por isso que o combate à violência contra a mulher precisa começar muito antes da agressão física.
E aqui existe um agravante político e moral: estamos falando de um deputado estadual.
Chico Guarnieri não ocupa uma posição qualquer. Ele recebeu votos da população para representá-la dentro da Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Exerce poder, possui influência política e ocupa uma posição pública que naturalmente exige responsabilidade maior sobre sua conduta.
Um homem público precisa entender o peso de suas palavras.
Não se espera que deputados sejam pessoas perfeitas. Eles discutem, discordam, ficam irritados e enfrentam conflitos como qualquer cidadão.
Mas existe uma distância enorme entre discordar de alguém e despejar sobre uma mulher um vocabulário ofensivo e intimidador.
É impossível ouvir aquele áudio sem fazer outra pergunta:
Que mensagem um episódio desses transmite às mulheres que diariamente enfrentam situações semelhantes?
Quantas mulheres já ouviram palavras ofensivas de homens e permaneceram caladas por medo?
Quantas já receberam ameaças veladas?
Quantas já ouviram que alguém "iria até o seu trabalho", "iria atrás delas" ou expressões semelhantes e tiveram que calcular se aquilo era apenas bravata ou se deveriam realmente temer pelo que poderia acontecer?
É exatamente por isso que esse tipo de comportamento não pode ser relativizado.
Não importa quem é a mulher.
Não importa qual foi a discussão.
Não importa se existia uma divergência anterior.
Não importa se houve desentendimento político, empresarial ou pessoal.
Nada disso concede a um homem autorização para humilhar ou intimidar uma mulher.
E também não se trata de transformar mulheres em seres frágeis que precisam ser protegidos de qualquer discussão. Mulheres podem discordar, discutir, enfrentar, responder e cobrar.
O que elas não precisam aceitar é tratamento desrespeitoso simplesmente por serem mulheres.
Aliás, talvez esse seja justamente o ponto central desse episódio.
Se Chico Guarnieri estivesse discutindo com um empresário homem, usaria exatamente o mesmo vocabulário?
Se a resposta for sim, ainda assim a conduta seria lamentável.
Se a resposta for não, então o problema é ainda maior.
Em uma sociedade que tenta ensinar homens a respeitarem mulheres, autoridades públicas deveriam contribuir pelo exemplo, não pelo contrário.
Não podemos exigir respeito às mulheres apenas nas campanhas de conscientização.
Não podemos defender o combate à violência contra a mulher somente no mês de agosto, durante discursos do Agosto Lilás.
Não podemos vestir camisetas, participar de solenidades, aprovar leis e fazer discursos dentro da Assembleia Legislativa enquanto, fora dela, comportamentos de humilhação e intimidação continuam sendo tratados como algo corriqueiro.
Defender as mulheres precisa valer também quando é inconveniente.
Precisa valer quando o acusado é poderoso.
Precisa valer quando é deputado.
Precisa valer quando é aliado.
Precisa valer quando é amigo.
E precisa valer independentemente de partido político.
O episódio envolvendo Chico Guarnieri merece repúdio porque existem limites que simplesmente não deveriam ser ultrapassados.
Discordância não autoriza humilhação.
Raiva não autoriza intimidação.
Cargo público não concede salvo-conduto para tratar uma mulher dessa maneira.
Ao deputado cabe explicar publicamente sua atitude e, sobretudo, refletir sobre ela.
Porque numa época em que mulheres continuam sendo agredidas, perseguidas, ameaçadas e mortas pelo simples fato de serem mulheres, autoridades públicas deveriam ajudar a romper essa cultura — jamais contribuir para sua normalização.
E fica a pergunta que talvez incomode justamente porque é simples demais:
Spz Online
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