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Quase 700 mil brasileiros morreram de Covid-19 ao longo do governo Jair Bolsonaro. Foram 3,3 mil mortos por milhão de habitantes, a 16ª pior taxa do mundo entre países com mais de 1 milhão de habitantes, segundo a organização Our World in Data. Se o Brasil tivesse seguido a média mundial, aplicando medidas de prevenção recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 500 mil vidas teriam sido poupadas. É um número maior que o total de mortos em várias guerras recentes.
Mas, nesta quinta-feira (11), o ex-presidente foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão — e nenhum dos crimes pelos quais foi sentenciado tem relação com a tragédia sanitária que marcou o país. Não houve responsabilização penal pelas vidas perdidas.
Durante a pandemia, quando cientistas alertavam para a gravidade da crise, Bolsonaro escolheu o caminho do negacionismo. Se opôs ao isolamento social, desestimulou o uso de máscaras, atrasou a compra de vacinas e incentivou o uso de medicamentos sem eficácia. Transformou a maior crise de saúde pública do século em um palanque político. A frase “E daí? Não sou coveiro” se tornou símbolo de uma postura de desprezo diante da morte.
A filósofa Hannah Arendt, ao analisar os crimes de Estado no século XX, alertava que o perigo maior não é o excesso de maldade, mas a sua banalização — o que chamou de “banalidade do mal”. Bolsonaro representou exatamente isso: a naturalização da morte em massa como custo aceitável da política.
A CPI da Covid buscou romper esse silêncio. Reuniu milhares de páginas de depoimentos e provas, concluindo que Bolsonaro cometeu crimes contra a humanidade. Mas o então procurador-geral da República, Augusto Aras, engavetou tudo. Preferiu proteger o presidente em vez de honrar as vítimas. Como escreveu Achille Mbembe, em Necropolítica, o poder soberano muitas vezes se manifesta no direito de decidir quem pode viver e quem deve morrer. No Brasil, essa decisão foi exercida na forma de descaso.
O filósofo Vladimir Safatle lembra que, quando a política reduz vidas humanas a estatísticas descartáveis, abre-se espaço para o que chama de “gestão da morte como política pública”. Foi isso que vimos: filas de oxigênio em Manaus, famílias enlutadas, comunidades indígenas desassistidas, trabalhadores informais abandonados à própria sorte.
Enquanto isso, a máquina do Estado silenciava. Não apenas Bolsonaro escapou da responsabilização, mas também vários aliados e implicados na CPI seguiram fortalecidos na política. O Brasil, em vez de elaborar seu luto, tentou enterrá-lo junto com as vítimas.
Como sociedade, precisamos afirmar o óbvio: vidas não são descartáveis. Cada brasileiro morto tinha uma história, uma família, um futuro interrompido. A memória dessas vidas não pode ser apagada pelo esquecimento coletivo. Como disse Walter Benjamin, “nem mesmo os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer”. O esquecimento seria uma segunda morte.
Por isso, o jornalismo, como lembra a Pública, tem papel central: investigar, documentar e cobrar. Não apenas para informar, mas para preservar a memória e exigir justiça. Sem memória, não há futuro democrático possível.
O Brasil precisa olhar para essa ferida aberta e reconhecê-la. Não por desejo de vingança, mas para impedir que se repita. O silêncio não pode ser a resposta. Esquecer é absolver. Lembrar é resistir.
* Paulo Lemos é advogado integrante da Rede Nacional de Advogados Populares e ex-presidente do Conselho Nacional de Ouvidorias das Defensorias Públicas do Brasil
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