O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), resolveu transformar em caso de Justiça aquilo que, em qualquer democracia madura, seria visto apenas como parte do jogo político: a crítica e a sátira. Ao mover uma ação de R$ 40 mil contra o perfil de humor @capivara.play, que fez piada com sua crise com a vice-prefeita, Abílio expõe um traço preocupante de sua gestão, a intolerância à divergência e à livre expressão.

Curiosamente, Abílio só parece defender a liberdade de expressão quando ela lhe é conveniente. Quando o alvo é ele próprio ou seus aliados, a máxima da Constituição que garante o direito de criticar e questionar se torna, para seu governo, letra morta. Essa seletividade deixa claro que o prefeito prefere silenciar vozes críticas a enfrentar debates ou sátiras públicas.

A sátira política sempre foi um instrumento legítimo de contestação popular. De charges em jornais a memes nas redes sociais, rir dos poderosos é uma forma de questionar excessos, denunciar contradições e aproximar o debate do cidadão comum. Quando um gestor público se sente pessoalmente ofendido a ponto de acionar advogados e pedir indenização contra um perfil de humor, o recado é claro: o poder não aceita ser ridicularizado.

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Mais do que uma ação isolada, o processo contra o humorista soma-se ao processo contra um blogueiro, formando um padrão: o de judicializar opiniões incômodas. Não se trata de defesa da honra, mas de um uso do aparato judicial como escudo político, criando um ambiente de medo entre jornalistas, comunicadores e humoristas.

A democracia se fortalece quando governantes convivem com críticas, mesmo as mais duras ou caricatas. A Justiça deve ser acionada para proteger cidadãos de abusos reais, não para blindar políticos do desconforto de serem criticados ou ridicularizados.

Quando o poder não tolera o riso, é sinal de que já não entende o seu papel em uma sociedade livre.