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Segunda-feira, 03 de Agosto 2026
Eleições 2026

Racha no grupo governista fortalece Wellington na disputa pelo Governo de Mato Grosso

Com a chapa praticamente definida, senador do PL transforma insatisfações do grupo governista em apoios; atual governador mantém força institucional, mas chega à campanha pressionado por divisões políticas

Jean Borsatti
Por Jean Borsatti
Racha no grupo governista fortalece Wellington na disputa pelo Governo de Mato Grosso
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A dois dias do encerramento do prazo para as convenções partidárias, o cenário eleitoral de Mato Grosso começa a apresentar contornos mais definidos. Até 5 de agosto, partidos e federações devem escolher oficialmente seus candidatos e deliberar sobre as coligações para as eleições de outubro.

Nesta reta final, o senador Wellington Fagundes, do Partido Liberal, conseguiu avançar na formação de uma aliança que reúne diferentes segmentos da direita mato-grossense. Ao mesmo tempo, o governador Otaviano Pivetta, do Republicanos, assegurou o apoio formal de importantes estruturas partidárias, mas ainda enfrenta as consequências dos conflitos registrados dentro da base política construída pelo ex-governador Mauro Mendes.

O PL oficializou a candidatura de Wellington ao Governo de Mato Grosso em convenção realizada no dia 22 de julho. A confirmação representou uma derrota para os setores que defendiam a retirada do senador da disputa e a formação de uma candidatura única da direita em torno de Pivetta.

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Durante meses, lideranças ligadas ao grupo governista trabalharam para concentrar os principais partidos em torno do atual governador. A estratégia permitiria que Pivetta entrasse na eleição sem enfrentar um adversário competitivo dentro do mesmo campo ideológico. A permanência de Wellington, entretanto, impediu essa espécie de candidatura por consenso.

Mais do que resistir às tentativas de retirada, Wellington conseguiu transformar a pressão sofrida nos bastidores em discurso político. O senador passou a se apresentar como uma candidatura independente do grupo comandado por Mauro Mendes e abriu espaço para receber lideranças que se sentiram excluídas ou contrariadas pelas decisões tomadas dentro da antiga base governista.

Vitória de Mauro expôs divisão no União Brasil

O principal episódio dessa reorganização ocorreu durante a convenção do União Brasil, realizada no dia 30 de julho. Na ocasião, os convencionais rejeitaram a candidatura própria defendida pelo senador Jayme Campos e aprovaram o apoio à reeleição de Otaviano Pivetta.

A proposta defendida por Mauro Mendes venceu por 30 votos contra 19. O resultado garantiu a Pivetta o apoio formal do União Brasil, mas revelou uma divisão expressiva dentro da legenda. Quase 40% dos convencionais presentes votaram pela candidatura de Jayme Campos, demonstrando que a posição defendida por Mauro estava longe de ser consensual.

Sob o ponto de vista partidário, Mauro saiu vencedor. Conseguiu impor sua estratégia, derrotar a candidatura própria e manter o União Brasil no palanque governista. Politicamente, entretanto, o custo dessa vitória pode ser maior do que o placar da convenção sugere.

A decisão provocou insatisfação entre aliados de Jayme e aprofundou um conflito interno que já vinha sendo exposto publicamente. Integrantes do partido passaram a questionar a condução de Mauro e classificaram como traição a opção pelo apoio a um candidato de outra legenda.

Nesse contexto, Pivetta recebeu formalmente um partido importante, mas herdou também suas divisões. O desafio do governador será transformar uma decisão tomada pela maioria dos convencionais em engajamento efetivo de prefeitos, parlamentares, dirigentes e lideranças municipais.

Uma convenção garante apoio partidário, tempo de propaganda e estrutura jurídica para uma coligação. Não garante, necessariamente, que todos os integrantes da legenda participem da campanha com o mesmo nível de empenho.

Wellington ocupa os espaços deixados pela ruptura

Wellington Fagundes percebeu esse movimento e passou a disputar justamente as lideranças contrariadas pelo grupo de Mauro Mendes. O senador afirmou ter recebido o apoio de Jayme Campos após a derrota do parlamentar na convenção do União Brasil. Até o momento, essa aproximação tem sido anunciada principalmente por Wellington e ainda precisará ser demonstrada de maneira mais clara durante a campanha.

Caso Jayme participe efetivamente do palanque de Wellington, o gesto terá forte valor simbólico. Além de representar uma ruptura dentro do União Brasil, colocará frente a frente duas das principais lideranças históricas da legenda: Mauro Mendes, apoiando Pivetta, e Jayme Campos, aproximando-se do candidato do PL.

Jayme também possui influência política consolidada, especialmente na Baixada Cuiabana e entre lideranças municipais. Mesmo sem disputar o Governo, tornou-se uma peça relevante nas articulações realizadas às vésperas do encerramento das convenções.

Assim, a derrota de Jayme dentro do partido não significou sua retirada do processo eleitoral. Pelo contrário: ao ser impedido de concorrer, o senador passou a ser disputado pelos grupos que buscam ampliar suas alianças.

Janaina Riva amplia o alcance da chapa

O avanço mais significativo de Wellington ocorreu no domingo, 2 de agosto, com a confirmação da aliança entre o PL e o MDB. A deputada estadual Janaina Riva deverá concorrer ao Senado na chapa encabeçada pelo senador, ao lado do deputado federal José Medeiros, do PL.

Janaina comunicou aos filiados do MDB que o acordo havia sido fechado após uma conversa com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Segundo ela, Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro também deverão participar da campanha da aliança em Mato Grosso.

A entrada de Janaina possui relevância estratégica. A deputada tem presença eleitoral no interior, interlocução com prefeitos e lideranças municipais e um capital político que ultrapassa os limites tradicionais do MDB.

Sua candidatura também permite que Wellington amplie a chapa para além do eleitorado mais diretamente identificado com o bolsonarismo. Enquanto José Medeiros representa o segmento mais ideológico do PL, Janaina pode dialogar com setores de centro, grupos municipalistas e eleitores que não possuem ligação orgânica com o partido de Wellington.

Essa combinação, no entanto, também exigirá coordenação. Como Mato Grosso elegerá dois senadores, os candidatos da mesma chapa precisarão estimular o voto conjunto sem permitir que a disputa individual por preferência e estrutura provoque conflitos internos.

Marcelo Maluf completa a composição

A definição do empresário Marcelo Maluf, do Novo, como candidato a vice-governador completa uma parte importante da composição de Wellington. A chapa passa a ter Wellington como candidato ao Governo, Maluf como vice e Janaina Riva e José Medeiros concorrendo às duas vagas ao Senado.

A entrada de Maluf produz dois efeitos políticos. O primeiro é a incorporação do Novo à aliança, agregando um partido identificado com pautas liberais e com setores do empresariado.

O segundo efeito é a retirada de uma eventual candidatura concorrente no campo da direita. Maluf havia se colocado anteriormente como possível candidato ao Governo. Ao aceitar a vice, deixa de dividir esse eleitorado e passa a trabalhar diretamente pelo projeto de Wellington.

Com isso, o senador do PL reúne uma chapa que combina diferentes perfis: o bolsonarismo representado por Wellington e José Medeiros, a estrutura regional do MDB de Janaina Riva e o discurso liberal e empresarial associado ao Novo e a Marcelo Maluf.

Não se trata de uma composição naturalmente homogênea. Cada partido possui interesses próprios, especialmente nas disputas proporcionais e nas duas eleições para o Senado. Ainda assim, Wellington chega ao fim das convenções demonstrando maior capacidade de agregar forças que inicialmente estavam divididas.

Podemos torna-se a última peça

Com a definição de Marcelo Maluf como vice, as articulações passaram a se concentrar no Podemos, presidido em Mato Grosso pelo presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi.

A legenda não deverá mais indicar o candidato a vice, mas poderá participar da composição das suplências ao Senado e das alianças proporcionais. A adesão do Podemos ampliaria a presença municipal da chapa e acrescentaria um partido com influência significativa dentro da Assembleia Legislativa.

Para Wellington, conquistar o Podemos representaria a conclusão de uma frente formada por PL, MDB, Novo e uma parcela das lideranças descontentes com o grupo governista.

Para Pivetta, a perda da legenda significaria assistir a mais um antigo aliado aproximar-se do principal adversário. A decisão do partido, portanto, possui uma importância que ultrapassa o número de votos ou o tempo de propaganda: poderá servir como sinalização sobre qual candidatura apresenta maior capacidade de atração política neste início de campanha.

Pivetta mantém vantagens importantes

O fortalecimento de Wellington não significa que Pivetta esteja fora da disputa ou desprovido de instrumentos eleitorais. O atual governador assumiu definitivamente o comando do Estado após a renúncia de Mauro Mendes e possui a visibilidade, a estrutura política e a capacidade de articulação proporcionadas pelo cargo.

Pivetta também pode defender a continuidade de um governo do qual participou diretamente. Como vice de Mauro durante os dois mandatos, esteve ligado às principais decisões administrativas e pode apresentar-se como responsável por preservar projetos, investimentos e políticas públicas já em andamento.

Essa continuidade, porém, possui dois lados. Ao mesmo tempo em que permite a Pivetta reivindicar os resultados positivos da gestão, também dificulta a construção de uma identidade política completamente própria.

Até agora, a articulação de sua candidatura tem sido associada principalmente a Mauro Mendes. Foi o ex-governador quem conduziu a disputa interna no União Brasil, negociou apoios e trabalhou para reduzir o número de candidaturas no campo da direita.

Pivetta precisará demonstrar que não é apenas o candidato escolhido por Mauro, mas uma liderança capaz de comandar a própria campanha, reorganizar a base e dialogar com os setores que se afastaram do grupo governista.

Força institucional contra impulso político

O cenário coloca em confronto dois tipos diferentes de vantagem.

Pivetta possui a força institucional: ocupa o Governo, dispõe de uma base administrativa consolidada e conta com o apoio formal de partidos e lideranças que participaram da gestão de Mauro Mendes.

Wellington possui, neste momento, maior impulso político. Sua candidatura resistiu às pressões, atraiu Janaina Riva, incorporou Marcelo Maluf, manteve José Medeiros em sua chapa e passou a dialogar com Jayme Campos e com o Podemos.

O senador também conseguiu mudar a narrativa da eleição. Inicialmente tratado como um nome que poderia ser retirado para facilitar a candidatura de Pivetta, Wellington chega ao final das convenções como articulador de uma chapa ampla e praticamente completa.

Pivetta, por outro lado, venceu a disputa pelo apoio formal do União Brasil, mas não conseguiu impedir que as divergências internas do partido produzissem consequências externas. Parte das lideranças derrotadas passou a buscar espaço justamente no grupo adversário.

Cenário ainda exige cautela

Apesar do momento favorável, Wellington também enfrentará dificuldades. Uma aliança composta por PL, MDB e Novo reúne partidos com perfis, interesses e estratégias diferentes. O senador precisará administrar a distribuição de espaços, as disputas proporcionais e a convivência entre duas candidaturas competitivas ao Senado.

Também será necessário verificar se os apoios anunciados nos bastidores se converterão em participação pública e efetiva durante a campanha. Lideranças podem declarar preferência por um candidato sem necessariamente mobilizar toda a sua estrutura política.

Pivetta, por sua vez, terá de demonstrar capacidade de reação. Sua campanha precisará reduzir as insatisfações, evitar novas perdas e utilizar a posição de governador sem transmitir ao eleitorado a impressão de que sua candidatura depende exclusivamente da influência de Mauro Mendes.

Neste momento, Wellington Fagundes parece ter vencido a etapa política das convenções. Conseguiu ampliar sua composição e transformar os impasses da antiga base governista em oportunidades para sua candidatura.

Pivetta permanece competitivo e conserva vantagens institucionais relevantes, mas entra na campanha pressionado por uma base menos coesa do que seus articuladores pretendiam construir.

A eleição ainda está aberta. Entretanto, o projeto de candidatura única da direita não se concretizou. Em seu lugar, Mato Grosso terá uma disputa direta entre o governador que representa a continuidade administrativa e o senador que conseguiu reunir parte dos descontentes com essa mesma continuidade.

A partir de agora, o desafio de Wellington será transformar alianças em votos. O de Pivetta será provar que a estrutura do Governo e o apoio formal dos partidos são suficientes para superar as fissuras abertas dentro de sua própria base.

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Jean Borsatti

Jean Borsatti é jornalista, tem 34 anos e é diretor de redação do Spz Online. Trabalha na imprensa desde 2009 e desde 2020 comanda o Spz Online

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