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Quarta-feira, 05 de Agosto 2026
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Muito além da fazenda

Cícero Ramos é engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).

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Muito além da fazenda
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O que uma greve em um porto, a falta de fertilizantes e um gargalo logístico têm em comum? Todos podem comprometer uma lavoura localizada a centenas de quilômetros de distância. Isso acontece porque a agricultura moderna deixou de ser uma atividade isolada. Ela funciona como um sistema em que decisões tomadas antes do plantio e muito depois da colheita influenciam diretamente o resultado obtido dentro da propriedade rural.

Hoje essa ideia parece evidente. Em 1957, porém, ela revolucionou a forma de compreender a agricultura. Foi nesse contexto que os pesquisadores norte-americanos John H. Davis e Ray A. Goldberg publicaram A Concept of Agribusiness, demonstrando que a produção agrícola não começa na fazenda nem termina na colheita. Ela faz parte de um sistema econômico integrado.

Antes que uma semente chegue ao solo, existe uma cadeia responsável pelo desenvolvimento de máquinas, fertilizantes, defensivos, equipamentos, softwares, crédito e assistência técnica. Depois da colheita, entram em cena a armazenagem, o transporte, o processamento industrial, a comercialização, a exportação e a distribuição dos alimentos. A produção rural constitui apenas um dos elos desse sistema.

Essa perspectiva alterou a própria forma de compreender os riscos da atividade agrícola. Uma seca continua sendo capaz de comprometer uma safra. Mas um porto congestionado, uma interrupção no fornecimento de fertilizantes, uma crise energética ou uma barreira comercial também podem produzir impactos expressivos sobre toda a cadeia produtiva. Todos esses eventos ocorrem em elos diferentes do sistema, mas produzem o mesmo resultado: aumentam custos, reduzem a competitividade e afetam a produção.

Foi essa a principal contribuição de Davis e Goldberg. O produtor rural permanece no centro da atividade, mas seu desempenho está diretamente relacionado ao funcionamento dos demais elos. Produzir bem continua indispensável. Mas o sucesso da atividade rural depende cada vez mais da eficiência do sistema que a cerca.

Ao longo das últimas décadas, o foco também se deslocou da produção para o mercado. O desafio deixou de ser apenas aumentar o volume produzido. Hoje, qualidade, rastreabilidade, regularidade de fornecimento, gestão de riscos, inovação e competitividade passaram a determinar o sucesso da atividade rural. Administrar a propriedade tornou-se tão importante quanto produzir.

O Brasil talvez seja um dos exemplos mais claros dessa dinâmica. Em 2025, o agronegócio respondeu por 25,1% do Produto Interno Bruto, empregou 26,3% da população ocupada e exerceu papel decisivo na balança comercial brasileira. No mesmo ano, a agropecuária cresceu 11,7% e respondeu por 32,8% da expansão da economia nacional. Esses números mostram que os efeitos da agricultura ultrapassam os limites da fazenda e alcançam toda a economia.

Essa interdependência explica a força econômica de centenas de municípios do interior, onde a produção agropecuária movimenta cooperativas, agroindústrias, transportadoras, armazéns, revendas de insumos, instituições financeiras e inúmeros prestadores de serviços. Quando um elo evolui, toda a cadeia tende a crescer com ele. Quando um elo falha, os efeitos também se propagam.

Quase sete décadas depois, a principal contribuição de Davis e Goldberg permanece atual. A agricultura não pode ser compreendida apenas pelo que acontece dentro da propriedade rural. Ela funciona como um sistema em que infraestrutura, pesquisa, crédito, logística, indústria, comércio e produção são interdependentes.

Produzir alimentos continua sendo essencial. Mas é a integração entre todos os elos que explica a força do agronegócio moderno.

Cícero Ramos é engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).

 

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