A disputa para o Governo de Mato Grosso promete, em 2026, algo inédito: um segundo turno.
Desde que o segundo turno foi instituído no Brasil, em 1988, os mato-grossenses jamais precisaram ir duas vezes às urnas para escolher quem ocuparia o Palácio Paiaguás. Isso promete mudar em 2026, já que, pela primeira vez, a eleição está tão disputada a ponto de esse cenário se tornar uma possibilidade concreta.
Neste momento, os favoritos para estarem no segundo turno são o atual governador Otaviano Pivetta (Republicanos) e o senador Wellington Fagundes (PL).
Correndo por fora está a médica Natasha Slhessarenko (PSD), que, apesar de ser subestimada por grande parte dos analistas políticos, também possui chances de chegar ao segundo turno, desde que tome decisões coerentes com a conjuntura política e, principalmente, compreenda onde está sua maior possibilidade de crescimento eleitoral.
Pela primeira vez desde 2014, quando Lúdio Cabral (PT) se candidatou ao governo, o campo progressista de Mato Grosso tem uma candidata que realmente pode chamar de sua.
Vale destacar que, em 2018, o candidato apoiado por esse campo foi Wellington Fagundes, que hoje figura como uma liderança conservadora e disputa a eleição pelo Partido Liberal (PL), partido da extrema-direita ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Já em 2022, a candidata foi Márcia Pinheiro, esposa do ex-prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro. Na ocasião, ela disputou o governo com o apoio de partidos historicamente posicionados no campo progressista.
Se, em 2014, Lúdio Cabral conseguiu a façanha de obter mais de 32% dos votos, nos anos seguintes os candidatos apoiados pelo campo progressista deixaram a desejar.
Em 2018, Wellington Fagundes obteve pouco mais de 19% dos votos. Em 2022, a situação foi ainda pior: Márcia Pinheiro conseguiu pouco mais de 16%.
De modo geral, o Partido dos Trabalhadores (PT) e os demais partidos incluídos no campo progressista acertaram ao apoiar Natasha.
Isso porque, pela primeira vez em 12 anos, aqueles que se identificam com a esquerda ou com a centro-esquerda poderão votar em uma candidatura que represente de forma mais natural esse campo político.
Mas a única chance de Natasha repetir algo semelhante ao que sua mãe, Serys Slhessarenko, conseguiu quando foi eleita ao Senado em 2002, tornando-se uma das grandes surpresas daquela eleição, passa necessariamente por uma decisão política bastante clara:
Natasha precisa grudar sua imagem na do presidente Lula.
Em 2022, Lula obteve quase 35% dos votos no primeiro turno em Mato Grosso. As expectativas são de que, neste ano, esse percentual possa chegar próximo de 40%.
É exatamente esse eleitorado que Natasha precisa buscar.
E não existe motivo político para tentar esconder Lula.
Muito pelo contrário.
Se Natasha tentar construir uma candidatura excessivamente distante do presidente para buscar votos no eleitorado de centro ou até mesmo conservador, poderá cometer um erro fatal: não conquistar esse eleitorado e, ao mesmo tempo, deixar de mobilizar aqueles que naturalmente poderiam votar nela.
A matemática eleitoral é relativamente simples.
Se Lula possui algo entre 35% e 40% do eleitorado mato-grossense, Natasha não precisa conquistar todo esse contingente para entrar de vez na disputa.
Se conseguir transformar uma parcela expressiva dos votos de Lula em votos para sua candidatura ao governo, ela rapidamente deixa de ser uma candidata que “corre por fora” e passa a disputar diretamente uma vaga no segundo turno.
O primeiro desafio, portanto, não é conquistar o eleitor de Wellington Fagundes.
Também não é conquistar o eleitor de Otaviano Pivetta.
O primeiro desafio é fazer com que o eleitor que pretende votar em Lula para presidente também vote em Natasha para governadora.
Essa deveria ser a prioridade absoluta de sua campanha.
Lula precisa aparecer
Natasha precisa aparecer ao lado de Lula.
Precisa utilizar sua imagem.
Precisa apresentar-se claramente como a candidata do presidente em Mato Grosso.
Precisa pedir voto junto com Lula.
Precisa transformar cada eleitor petista ou progressista do estado em um potencial cabo eleitoral de sua candidatura.
Não há razão para fazer uma campanha tímida nesse aspecto.
Mato Grosso é um estado majoritariamente conservador. Isso todos sabem. Natasha também sabe.
Ela não vai mudar essa realidade durante uma campanha eleitoral.
Também dificilmente conquistará uma parcela significativa do eleitorado bolsonarista tentando parecer menos ligada a Lula.
Por isso, esconder o presidente seria abrir mão justamente de seu maior ativo eleitoral.
Enquanto Wellington Fagundes deverá explorar ao máximo sua ligação com Jair Bolsonaro e Otaviano Pivetta buscará capitalizar sua posição no governo e a continuidade da atual gestão, Natasha precisa deixar absolutamente claro quem representa.
Essa identificação precisa ser imediata.
O eleitor precisa olhar para Natasha e pensar:
“Essa é a candidata de Lula em Mato Grosso.”
Somente depois de consolidar esse eleitorado é que a campanha deve ampliar seu discurso para setores mais ao centro.
Fazer o caminho inverso pode ser extremamente perigoso.
A eleição pode deixar de ser uma disputa de dois
Hoje, grande parte da análise política trata a eleição para o Governo de Mato Grosso como uma disputa entre Pivetta e Wellington.
Natasha aparece como terceira colocada.
Mas eleições não são fotografias congeladas.
Campanhas existem justamente porque o cenário pode mudar.
Se Natasha permanecer em uma faixa baixa de intenção de voto, naturalmente Pivetta e Wellington concentrarão a disputa.
Mas, se ela conseguir crescer com apoio direto de Lula, a eleição deixa de ser uma disputa entre dois candidatos e passa a ter três nomes competitivos.
E é justamente neste ponto que aparece a possibilidade concreta de segundo turno.
Quanto mais Natasha crescer, mais difícil será para qualquer candidato ultrapassar a barreira necessária para vencer a eleição já na primeira votação.
Ao mesmo tempo, ela própria passa a ameaçar a segunda colocação.
É por isso que sua candidatura não pode ser desprezada.
Natasha não precisa, neste momento, convencer Mato Grosso inteiro.
Precisa convencer primeiro o eleitorado que já está politicamente mais próximo dela.
Se Lula alcançar algo próximo de 40% no estado e Natasha conseguir aproveitar uma parcela significativa desse eleitorado, poderá chegar às últimas semanas da campanha em condições completamente diferentes das atuais.
E, chegando competitiva à reta final, a história muda.
O erro seria ter vergonha de Lula
O maior erro que Natasha poderia cometer nesta eleição seria repetir uma estratégia comum em estados conservadores: tentar esconder ou minimizar sua ligação com Lula imaginando que isso facilitaria a aproximação com eleitores de direita.
Não facilita.
O eleitor conservador sabe quem são os aliados de Lula.
Assim como o eleitor de esquerda também sabe.
Tentar criar uma distância artificial pode apenas enfraquecer a própria identidade da candidatura.
Natasha precisa fazer exatamente o contrário.
Precisa assumir Lula.
Precisa defender seu governo quando considerar necessário.
Precisa mostrar o que o governo federal realizou em Mato Grosso.
Precisa levar Lula para sua campanha.
Precisa colocar os dois no mesmo palanque.
Precisa transformar a eleição estadual em uma escolha também relacionada ao projeto político nacional.
Porque Wellington certamente fará isso com Bolsonaro.
E, se Wellington tem Bolsonaro, Natasha precisa ter Lula.
A disputa eleitoral também passa por identidade.
Existe espaço para uma surpresa
Serys Slhessarenko surpreendeu Mato Grosso em 2002.
Natasha pode surpreender em 2026.
Mas surpresas eleitorais não acontecem simplesmente porque uma candidata possui um sobrenome conhecido ou porque existe espaço político disponível.
É necessário saber ocupar esse espaço.
Natasha possui uma oportunidade que candidatos apoiados pelo campo progressista não tiveram da mesma forma nos últimos 12 anos.
Ela pode apresentar-se como uma candidatura genuinamente identificada com esse eleitorado.
Pode resgatar parte da votação que Lúdio Cabral alcançou em 2014.
Pode aproveitar a força eleitoral de Lula.
E pode transformar aquilo que hoje parece uma disputa praticamente definida entre Pivetta e Wellington em uma corrida de três candidatos.
Para isso, entretanto, não existe espaço para indefinição.
Se quiser chegar ao segundo turno, Natasha precisa compreender que seu caminho começa pela esquerda.
Depois poderá avançar para o centro.
Mas primeiro precisa consolidar aqueles que naturalmente podem votar nela.
A conta é simples: se Lula possui quase 35% dos votos em Mato Grosso e pode chegar próximo de 40%, existe um universo eleitoral suficientemente grande para colocar Natasha no jogo.
Ela não precisa receber todos esses votos.
Precisa receber votos suficientes para ultrapassar um de seus adversários.
E, em uma eleição dividida entre três candidaturas competitivas, isso não é impossível.
Por isso, talvez Natasha seja hoje a candidata mais subestimada da disputa pelo Governo de Mato Grosso.
Pivetta e Wellington continuam favoritos.
Mas Natasha possui um caminho.
E esse caminho tem nome, sobrenome e uma enorme capacidade de transferência política dentro do campo progressista:
Luiz Inácio Lula da Silva.
Se Natasha entender isso e grudar em Lula, pode chegar ao segundo turno.
Se tentar escondê-lo, poderá desperdiçar justamente a maior oportunidade política de sua candidatura.

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