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No dia 25 de outubro de 2018 foi a primeira e a última vez que entrei na chamada “Ala Vermelha” do antigo Pronto-socorro de Cuiabá, a última por dois motivos: o primeiro porque agora existe o Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), que até onde sei, está recebendo os casos de urgência e emergência da capital, e a segunda porque não me atreveria entrar lá mesmo, principalmente depois do que presenciei.
Mas antes de chegar neste momento, é importante contextualizar para que você entenda os motivos que me levaram ir para aquele local. Neste dia não fui fazer matéria e nem como paciente (graças a Deus).
Um dia antes, recebi a informação de um amigo de Sapezal, cuja hoje é candidato a vereador, que Egnaldo Barbosa dos Santos, ou Kart, como ele gostava de ser chamado, ou Neguinho como era chamado por muitos (nunca gostei desse apelido), havia dado entrada no hospital em Sapezal. Não demorou muito para ele ter que ser transferido para a capital, já que ele teria que passar por uma cirurgia devido a gravidade do seu quadro de saúde, assim se fez.
No dia seguinte, recebo a informação de que Egnaldo havia sido transferido para Cuiabá, mais precisamente para o Pronto-Socorro, eram por volta das 8h quando me ligaram falando que ele estava em Cuiabá e que iria passar por uma cirurgia, até então eu estava despreocupado, pois ainda não havia entendido a gravidade do seu quadro de saúde.
A pessoa que me avisou sobre a vinda do Egnaldo para Cuiabá, havia dito que ele estava acompanhado apenas de sua esposa e que seria interessante que eu fosse até lá, me passando o número para que assim eu entrasse em contato com a mesma, assim eu fiz.
Ao entrar em contato, Celia me atendeu aos prantos, dizendo que o estado de saúde de seu marido era grave, falei que assim que fosse possível eu iria para o hospital para visita-lo. Minutos depois ela me retorna a chamada dizendo que já não tinha mais o que ser feito, já que Eganaldo havia morrido.
De imediato fui para o Pronto-socorro, ao chegar no local, perguntei onde que os pacientes ficavam, uma pessoa me explicou o caminho, que era relativamente longo, no trajeto pude constatar aquilo que um amigo havia me dito, “Aquilo é uma praça de guerra”, de fato, pessoas jogadas nos cantos dos corredores, pessoas chorando, enfim, uma verdadeira “praça de guerra”.
Quando cheguei no ponto que haviam me orientado, por coincidência, um conhecido trabalhava no local, foi quando perguntei sobre o Egnaldo, dando as características. O conhecido, olha para o lado, aponta o dedo para uma maca e pergunta: É aquele ali?
Sim! Era. Jogado em uma maca, despido e morto!
De imediato fui a procura de sua esposa que estava desesperada, pudera, o marido acabava de falecer, a partir dai foi dado todos os trâmites fúnebres, com a presença de uma pessoa enviada pelo prefeito de Sapezal para dar entrada na papelada.
Sei que é uma história complicada de ser contada, mas é necessário, pois aqui temos uma lição importante, que é o objetivo deste grande texto.
Quem conheceu Egnaldo sabe de suas qualidades e seus defeitos, principalmente em relação aos seus posicionamentos políticos, que como sempre falava a ele, “destoavam da realidade”. Ele sempre enxia a boca para falar de suas “amizades” com pessoas “importantes” da cidade, porém, no momento que ele mais precisou, estas pessoas lhes deram as costas, jogando o problema para o lado, imaginem, se fosse qualquer outra pessoa (como já aconteceu), esta seria encaminhada para um hospital particular, se possível de avião, mas não foi o caso de Egnaldo.
Ele foi jogado na Ala Vermelha do Pronto-Socorro de Cuiabá, onde morreu em cima de uma maca dura, completamente sem roupas e no meio de dezenas de outros pacientes que também estavam sofrendo.
Me atrevo a dizer, que Egnaldo sempre foi utilizado pela “elite” sapezalense como uma espécie de amuleto antirracismo, já que a elite adora mostrar que tem um negro e pobre ao seu lado, para poder reafirmar aquela grande falácia: Veja, não sou racista, fulano de tal é meu amigo e é negro!
O duro, é que sempre que possível, um grande amigo e eu, falávamos que no momento que ele mais precisasse, ele levaria um “pé na bunda” da “elite de araque” sapezalense. Assim se fez, talvez se ele fosse branco, ou um empresário importante, a história seria diferente, mas ele era apenas o Neguinho.
Se essas pessoas tivessem um pingo de consideração por quem quer que fosse, jamais deixariam isso acontecer, não estou falando que ele sobreviveria, afinal não posso afirmar isso, mas tenho certeza, que ao menos teriam lhe proporcionado uma morte mais digna, somente quem conheceu a tal “Ala Vermelha” sabe do que me refiro.
Hoje fazem dois anos de sua morte, sei que este texto não foi a melhor homenagem que ele já recebeu, mas são coisas que precisavam ser ditas e que estavam engasgadas a um bom tempo. E olha que não continuei a história depois de sua morte, um dia talvez diga as barbaridades que ouvi durante o velório na Capela Mortuária, mas isso deixa pra lá, afinal pseudo-burguês só fala bobagem mesmo.
Publicado por:
Jean Borsatti
Jean Borsatti é jornalista, tem 31 anos e é diretor de redação do Spz Online. Trabalha na imprensa desde 2009 e desde 2020 comanda o Spz Online
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